FALA, JÚLIO GARCIA – O militante

Meu pai tinha a mania de tentar doutrinar politicamente a molecada. Éramos uma turma grande. O preferido dele era Zé Verza, um pouquinho mais velho que nós. Raramente frequentava nossas reuniões noturnas na escadaria da igreja, na praça da matriz. Mas, quando ia, tinha sempre uma boa história ou uma piada picante para contar, recolhida dos fregueses da oficina mecânica do pai dele.

Zé Verza tinha quase veneração pelo meu pai, devido à atenção que recebia dele. Ouvia, embevecido, as mesmas histórias que pai contava – sempre as mesmas –, sobre personagens do Brasil, como Tiradentes e Frei Caneca, bem como fictícios, como Robin Hood, para embasar sua pregação sobre resistência aos exploradores.

Pai conseguiu fazer do nosso amigo seu fiel companheiro nas pichações noturnas contra políticos que ele execrava. Zé Verza, com sua força incomum, ajudava a carregar por mais tempo que nós, a lata de tinta usada nas pichações, ou os pacotes com panfletos que eram colocados sob as portas das residências, criticando o “salário de fome” que o prefeito pagava aos operários da prefeitura.

Pai acreditou que havia descoberto seu primeiro futuro colega de militância. Adolescente, mas pai via nisso uma poderosa vantagem, pois, àquela idade, seu pupilo ainda não adquirira os “vícios pequeno-burgueses” dos adultos.

Certa noite, no jantar, ouvi-o comentar com mãe, discretamente, mas com entusiasmo: “É como cultivar uma plantinha ainda tenra, à qual se dá trato, conduzindo a um crescimento saudável, livre das pragas e doenças da sociedade burguesa.”

Zé Verza era puro entusiasmo. Além de curtir as histórias, levava cartilhas de formação política para ler em casa. E até se antecipava ao pai nos locais das pichações porque ouvira dizer, na oficina, que o prefeito havia contratado guardas noturnos para rondar de bicicleta pelos bairros à busca dos pichadores comunistas. E avisava pai quando o bairro estava livre dos guardas.

Em uma daquelas noites, pai resolveu tomar lição do “assessor” sobre a leitura das cartilhas. Fez algumas perguntas e a nenhuma ele soube responder. Quase agoniado, pai perguntou: “Você não está tendo tempo para ler?” Embaraçado, o menino coçou a testa, gaguejou, mas respondeu: “Tempo tenho, não tenho é cabeça pra esses assuntos.”

Diante da expressão de decepção do meu pai, Zé Verza foi direto: “Olha aqui, seu Zé, eu gosto muito do senhor. O senhor me dá uma atenção que meu pai não me dá. Essas histórias que o senhor conta são umas belezuras. Mas, isso que o senhor faz contra o prefeito, contra o governo, vai dar problema. Meu pai falou que a qualquer momento o senhor vai levar umas porradas dos guardas. Eu só quero estar perto para não deixar que batam no senhor.”

Acabara ali a esperança de forjar o primeiro militante de têmpera de aço na cidadezinha. Em vez de militante, tinha formado um guarda-costa.

Ao chegar em casa, pai era a estátua da melancolia.

fala, julio garcia

Júlio Cezar Garcia é jornalista e um dos fundadores do Jornal da Segunda

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